quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Em meio ao caos

          Pegou o que sobrou da minha destruição e juntou na sua pra tentar, assim de um jeito meio torto, me mostrar que tudo bem se dali saísse pelo menos quase um inteiro. Esquisita é a forma como nem obrigação tinha, mas fez questão. Então, saímos pra caminhar. O caos do lugar devastado ao nosso redor parecia até uma ironia do destino, quase uma extensão de nós mesmos. Parecíamos estar levando aquilo aonde quer que fossemos.
          Enquanto caminhávamos, comecei a pensar em como encontrei-o e como chegamos até aqui. Simplesmente nos reconhecemos um no outro. Nos seus olhos pude ver uma dor que incomodava e quis ficar. Não posso sequer imaginar o que o fez querer ficar, mas era grato ao que quer que tivesse passado por sua cabeça. Havia uma certa beleza cruel nessa solidão compartilhada.
          Nos dias mais cinzas não havia comida, mas havia café. Em excesso, revirava o estômago de um. A sensação era a de revirar a vida até que fosse colocada para fora. Quando isso acontecia, o outro estava ali. Mas nenhum dos dois sabia dizer se era a vida ou só mesmo o café. Eventualmente dava pra rir. Deu pra aprender a lidar com as aversões do tempo e a dificuldade em fazer morada em qualquer lugar que fosse.
          Por vezes, quis partir. Certo estava de que minha companhia era mais deprimente do que suportável ou mesmo agradável. As coisas já eram difíceis por si só, não se fazia necessário qualquer agravante. Para ambas as partes. Quando certo de que mais escuridão trazia, ouvi: ''nos seus olhos pude ver a alegria que faltava''. Sorri.

3 comentários:

  1. "tudo bem se dali saísse pelo menos quase um inteiro." AI
    já começa assim
    tiro pra todo lado
    papapa
    popopo
    abaixa
    respiro fundo, continuo a leitura.
    "Havia uma certa beleza cruel nessa solidão compartilhada."
    [...]
    Esse texto
    indescritivelmente lindo,
    lembrou-me alguém. Alguém que fez tão bem quanto mal. às vezes mais bem do que mal, às vezes o contrário.
    "Por vezes, quis partir. Certo estava de que minha companhia era mais deprimente do que suportável ou mesmo agradável." acredito que se ele o tivesse escrito, acabaria aqui o texto.
    Só quis compartilhar mesmo :p
    e fico feliz que você (obrigadaaaaaa) não deu o ponto final ali.
    sei lá porque.
    você é topsterrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
    há beleza e poesia em duas metades tentando se fazer inteiro
    no fim das contas a gente esquece que metade é só uma criação humana pra gente se sentir menos, pra gente sentir que sempre falta algo que não existe, que nunca foi nosso, porque afinal, toda metade é um inteiro sozinho.
    acho que não fez sentido nenhum
    mas vc me perdoa kkk
    lindoooooo

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    1. Isso de lembrar alguém que fez bem, fez mal, já não dá pra distinguir, faz a gente se identificar e sentir de uma maneira, né? Cê sempre me faz ~~sentir dessas maneiras.

      E não, o ponto não poderia ser ali. Tem mais. Sempre tem.

      Há meias belezas e meias poesias nessas metades. Talvez na tentativa de serem inteiras saiam poesias. Plural. Muitos.

      Porque, afinal, toda metade é um inteiro sozinho. É. isso. VOCÊ É MARAVILHOSA!!!

      PS: Cê sempre faz sentido.

      Me perdoa você por levar 84 anos pra responder, teamo.

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