segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Mil reflexos

          Mil reflexos eram o que se via na parede do seu quarto enquanto estávamos deitados abraçados sob a luz da cidade. Em constante movimento, os prédios, luzes de carros e postes. Os sons altos da vida lá fora eram abafados pelo som da sua respiração no meu ouvido.
          Mil reflexos me faziam pensar em tudo o que já havíamos passado pra chegar até ali. A vida em meio ao caos urbano ainda é um tanto quanto longe do que planejávamos, mas soa até divertida quando dividida com você. Enquanto ajeita meu cabelo, na meia luz seus olhos me dizem que quer ficar. Eu queria que essa noite durasse dias pra te ter só assim durante muito.
          Mil reflexos se apressam a nos dizer que a vida lá fora tá acontecendo e que só olhar o seu sorriso não vai nos dar a vida que estamos correndo atrás. Mas é muito mais gostoso.
          Mil reflexos em movimento sobrepõem o nosso reflexo parado abraçado em observação. O tempo tá correndo e a gente não tá sabendo direito o que tá acontecendo, mas a questão que ecoa no silêncio de olhares e sorrisos no quarto de meia luz amarela é a mesma. Você ainda quer ficar?

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Em meio ao caos

          Pegou o que sobrou da minha destruição e juntou na sua pra tentar, assim de um jeito meio torto, me mostrar que tudo bem se dali saísse pelo menos quase um inteiro. Esquisita é a forma como nem obrigação tinha, mas fez questão. Então, saímos pra caminhar. O caos do lugar devastado ao nosso redor parecia até uma ironia do destino, quase uma extensão de nós mesmos. Parecíamos estar levando aquilo aonde quer que fossemos.
          Enquanto caminhávamos, comecei a pensar em como encontrei-o e como chegamos até aqui. Simplesmente nos reconhecemos um no outro. Nos seus olhos pude ver uma dor que incomodava e quis ficar. Não posso sequer imaginar o que o fez querer ficar, mas era grato ao que quer que tivesse passado por sua cabeça. Havia uma certa beleza cruel nessa solidão compartilhada.
          Nos dias mais cinzas não havia comida, mas havia café. Em excesso, revirava o estômago de um. A sensação era a de revirar a vida até que fosse colocada para fora. Quando isso acontecia, o outro estava ali. Mas nenhum dos dois sabia dizer se era a vida ou só mesmo o café. Eventualmente dava pra rir. Deu pra aprender a lidar com as aversões do tempo e a dificuldade em fazer morada em qualquer lugar que fosse.
          Por vezes, quis partir. Certo estava de que minha companhia era mais deprimente do que suportável ou mesmo agradável. As coisas já eram difíceis por si só, não se fazia necessário qualquer agravante. Para ambas as partes. Quando certo de que mais escuridão trazia, ouvi: ''nos seus olhos pude ver a alegria que faltava''. Sorri.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Sacred Oasis

          "Eu te amei em segredo desde o primeiro momento", ela me disse. Tudo o que eu conseguia saber era que não deixaria chegar ao fim, alguma maneira de recomeço haveria de haver. Nós já nem sabíamos mais o que estávamos fazendo, afinal, estávamos dançando de mãos atadas. A -falta da- respiração ao encarar o brilho dos seus olhos nessa meia luz mexia com os meus sentidos e eu ficava zonzo a cada movimento mais próximo. O vento sutil me arrepiava os braços até a nuca e eu podia sentir que ele me rodeava como se dançasse conosco. Suas formas pareciam ainda mais belas nesse jogo de luz.
          Ao som dos sintetizadores e das distorções, me distorcia todo junto e não sabia dizer se ainda corria contra o tempo ou se já concluíra meu objetivo antes do cronômetro zerar. As batidas mais intensas afastavam-na de mim e conduzir essa dança talvez fosse a coisa mais difícil que já fiz nesse relacionamento. O perfeito timing entre os passos e o ritmo. Conduzir-nos para outro mundo era parte da mágica sinistra que nos envolvia e eu não sabia dizer o que ela queria dizer com a expressão em seus enormes olhos de amêndoa. Simplesmente não sabia.
          Nela, essa atmosfera parecia libertar. De alguma maneira obscura ela sentia leveza. Isso fazia parte dela e de quem ela era, e de alguma maneira mais sinistra ainda isso me encantava. Fazia parte de tudo o que vinha junto no universo dela. Não haveria beleza maior por aí.
          "Então, baby, poderíamos dançar em meio a uma avalanche?". Mil vezes disse sim. Mil vezes diria.

(first sight, invisible locket)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Éden

          O planeta rosa claro Bono havia nomeado de Éden. Gostava de andar por lá quando precisava pensar. Pensar nos rumos da vida e da sua nave. Tanto ainda a descobrir, mas qual o sentido do destino final, afinal? Ao repensar nos caminhos da jornada, Bono gostava de sentir o aroma perfumado de Éden. Apesar de não vir necessariamente de flores ou algo assim delicado, os ventos de lá eram definitivamente confortantes. Pensou algumas vezes em fazer moradia, mas não levou muito a desistir. Sua inquietude jamais permitiria, em outrora.
          Mas... e agora?
          Bono pensava que, talvez, não fosse mais preciso viajar tanto. Que talvez pudesse construir algo em algum lugar. E por que não em Éden, então? Pensava que Mino gostaria bastante dali. As vidas singelas e doces. Podia-se dizer que era um lugar realmente romântico. E aí pensava em Mino. Em tudo sobre Mino e em como transformava-se com ele. Que coisa boa terem cruzado seus caminhos e dividirem o mesmo espaço-tempo na galáxia.
          Ao mesmo que a distância em que se encontravam agora, tantos outros lugares a frente de Éden. Destino futuro, talvez.
          Bono paira em Éden. Éden paira em Bono.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

• Abrir • (Memórias) • Não abrir •

       O cair das águas anunciava um novo tempo. As visões, cada vez mais constantes, confundiam os caminhos de Bono e ele já não sabia mais por onde seguir. A nave havia entrado em pane e precisava parar. Há oito luas atrás separara-se de Mino, com encontro marcado para daí a mais três. Jornadas individuais. Agora, perguntava-se como chegaria até lá a tempo. Fora forçado a pousar num pequenino planeta verde escuro e agora precisava arrumar sua nave antes de levantar voo novamente.
          Perguntava-se se o tom escuro do verde dava-se devido a chuva intensa, ou se o tom denso das selvas e do desconhecido já fazia parte do cenário natural do lugar. Enquanto caminhava, em Mino pensava. Eventualmente, pensava sobre o que fazia ele não estar presente em nenhuma das recentes visões que tivera. Bono sempre soube que a maioria delas carecia de interpretação, muitas das vezes não, necessariamente, literal. A grande igreja tomada pela entidade maligna, a seita, o colégio, a fuga. Os metrôs, onibus e carros desgovernados pelas mesmas pistas atrás da moto. Quem era Vicente? Apesar da face conhecida, sabia que era mera assimilação. Ainda não sabia o que isso queria dizer. Um barulho chamou a atenção e ele despertou de seu devaneio. Foi o tempo exato de ver os matos próximos se mexendo, como algo correndo em sua direção. Jogou-se no chão e ao olhar pra cima viu três luzes de tamanho mediano voando em disparada, em frente. Levantou e estava coberto de terra. Repentinamente a chuva parou, mas tudo continuou escuro como noite. Seguiu em direção às luzes, naves poderiam ser.
          Não precisou caminhar muito além para achar o final da floresta e um grande campo aberto. Logo adiante estavam as três naves, pousadas. Sentiu-se vitorioso e esperava que poderiam ajudá-lo a reparar a nave a tempo de encontrar Mino. Porém, o campo e as naves estavam estranhamente silenciosos. Apenas ouvia o som da natureza ao redor. Ao contornar uma das naves da ponta, encontrou um recipiente cilíndrico, de base reta e topo arredondado. Protegia algo em seu interior. O objeto emanava uma luz lilás e acompanhava uma carta. Bono não pôde conter sua curiosidade e estranheza diante daquela situação. Abaixou-se perante ao recipiente e abriu a carta.

"Tudo o que precisa para reparares sua nave é esta pedra. A energia que ela emana fortificará suas peças aos poucos, em curto período de tempo. Após isso, guarde-a. Por vezes se fará necessária. Mas, atenção: é preciso saber usá-la. Essa pedra vem de um planeta nas profundezas da galáxia Thorne e nada facilmente poderá ser substituída se usada de maneira imprudente.
Faça suas escolhas sabiamente e, se tudo correr bem, algo bom sempre existirá além do arco íris."

          Ao terminar de ler, Bono dobrou novamente a carta e olhou fixamente para a pedra. Deve ter ficado assim, imerso em seus pensamentos, por dez minutos, uma hora. É difícil precisar o tempo quando não se sabe onde está e nem como as coisas são medidas nesse lugar. Não era necessário que fizesse sentido. Não mais. Uma das coisas mais valiosas que ele havia aprendido durante sua incrível jornada pelas galáxias era que os mistérios de diferentes povos era uma das coisas mais enriquecedoras que pudera conhecer. Não havia o porque de questionar coisas das quais não entendia ou conhecia. O propósito era muito além disso. Aceitar o propósito das coisas era outra lição valiosa.
          De volta a sua nave, Bono observava onde seria o melhor lugar para que a pedra pudesse agir e se deu conta de que tudo estava devidamente em seu lugar. A pedra não seria necessária. Não seria? O que seria esse lugar verde musgo tão quieto e, ao mesmo tempo, que dizia tanto? Ao ligar a nave, as luzes acenderam e pôde ouvir o toque de Bloodstream. L.A. abriu, sim, as memórias. E então ele soube que estava exatamente aonde deveria estar.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Músicas atemporais da minha vida: Unusual You - Britney Spears

     Me perguntava quanto tempo levaria até ter uma música da Britney por aqui. Acontece que ela é dona de tantas músicas que me fazem trilha, de uma maneira bem singular, que mesmo ter as eleitas torna a decisão difícil. Mas difícil mesmo é ouvir Unusual You e não se apaixonar. Pela letra, pela melodia, pela suavidade da voz.
     Unusual You faz parte da composição do album Circus, lançado em 2008. Apesar da temática do album, a música acaba, até de certa forma, destoando um pouco das demais. Numa análise completa, ela tem seu lugar de encaixe perfeito na seleção final das faixas, mas sempre senti que, individualmente, ela se destacava das demais. O album ainda conta com outra baladinha e mais uma mid tempo, o que o faz bem gostoso de ouvir sequencialmente.

"been so many things when I was someone else
boxer in the ring trying to defend myself
in the private eye to see what's going on
(that's long gone)"

     A música fala sobre um amor incomum. Daqueles em que você entra já achando que tá datado, que vai se destruir no processo e, de repente, tudo dá certo. Analisando bem, cê meio que percebe que esperar certas coisas ruins são parte de traumas causados por relacionamentos anteriores. Quem vem depois não tem responsabilidade nenhuma pelo que quer que a gente já tenha passado, mas a gente meio que projeta isso inconscientemente. Unusual You nos mostra que estamos errados. Fala sobre o clímax de uma relação saudável, plena.
     O instrumental, que intercala um piano com notas maravilhosas e alguns sintetizadores, te passa uma sensação de libertação, de leveza. Mas não uma leveza simples. É quase como se você estivesse na ponta dos pés, prestes a voar. A sensação de redenção diante do relacionamento e como ele aflorou os seu sentimentos consigo mesmo. A suavidade da voz e as metáforas na letra, carregada de sentimento, fazem uma combinação harmoniosa e te fazem sorrir, acreditar. Esperança.
"tables are turning
my heart is soaring, you'll never let me down
answer my call, here after all
never met anyone like you"

     Essa é a típica música que vai me arrepiar todas as vezes em que eu ouvir. Quem convive um pouco mais comigo sabe como sou todo amor, talvez até demais. E ter uma música com tantas camadas de envolvimento como essa pra chamar de minha é uma das delícias de ser tão sentimental.
     Eu sempre costumei dizer que apenas identificaria alguém com essa música quando eu sentisse que havia encontrado A pessoa. Alguém que me fizesse sentir de verdade, que me ajudasse a ser, que crescesse comigo e me mostrasse coisas que jamais sonhei existir. De quando me identifiquei nessa música em 2008 até hoje, sempre seriam os olhos de gatinho. Completude.
     O cd single é fanmade. Infelizmente a música nunca foi lançada como single oficial, e por isso nunca ganhou uma versão física nem videoclipe. Muito satisfeito eu ficaria por vê-la representada num video. Quem sabe eu mesmo o faça algum dia?


Citações favoritas: "can't believe that I almost didn't try when you called my name, now everything has changed" e "been so many thing when I was someone else''

domingo, 15 de outubro de 2017

Season 1

          Das coisas mais legais que já me fizeram, pintar o céu de uma cor só nossa e me roubar as estrelas foi a sua maneira mais linda de externar tudo o que sentimos por dentro. Não achei ser possível. Desde que a viagem é feita em sua companhia, tudo tem infinitas cores e formas, e tudo é incrivelmente mais divertido. O que dizem sobre a vida ser melhor compartilhada não era bem lenda, afinal. A gente percebe que a utopia pode, sim, ser real.
          Starkru nos nomeou e sob esse título expandimos dois universos extremamente ricos. A percepção e identificação de novas pessoas do nosso povo.

ai laik jounie kom starkru.

          De amor e uma nova linguagem vivemos e construímos. Tantos lugares já conquistados e tantas aventuras ainda por vir. Nosso livro de aventuras. Up.
          Certeza eu tenho de que só cheguei a conhecer certos lugares porque estava comigo. Não me deixou desviar ou desistir de achar uma passagem entre os galhos. A recompensa logo veio quando, meio arranhados, achamos o bosque todo iluminado com cores extravagantes e transparentes. Tanta coisa única vimos juntos que eu queria ter podido fotografar pra guardar. Na mente guardado está.
          Se no início meus sentidos te chamavam inconscientemente, agora o fazem de maneira quase palpável. O quanto evoluímos até aqui meros terráqueos não entenderiam. We are starkru.