terça-feira, 29 de setembro de 2015

Resenha: Morte Súbita - J.K Rowling

     Então finalmente terminei de ler ''Morte Súbita''. Quem conversa comigo sobre livros, ou pelo menos quem trabalha comigo, sabe a luta que foi esse livro. Comecei com grandes expectativas, logo frustradas. Li outros três enquanto tentava ler esse. Larguei algumas vezes. A leitura no começo é bastante arrastada, grande parte por causa da sua contextualização. Com o passar das páginas você percebe que eram mesmo necessárias todas as explicações e detalhes ali apresentados de forma tão maçante no início, e que tudo fica cada vez mais rápido e intenso. O livro me pegou lá pela página 130, e meu primeiro ''Uau'' saiu lá pela 220. São 500.
     O fato é: uma vez que ele engata, você o devora. Meu interesse ficou bem real a partir da grande sacada do Arf Price e a primeira mensagem no site do conselho. É preciso dizer: Krystal Weedon me pegou de primeira. Sempre acabo envolvido com o tipo de apelo que o personagem dela carrega, e suas variações. Krystal e Sukhvinder são, pra mim, os personagens mais interessantes.
     A história gira em torno da morte súbita de um grande político do conselho distrital. Muito se especula sobre quem poderia vir a assumir a sua cadeira no conselho e sobre os candidatos, um com um esqueleto no armário maior do que o do outro. Acho os conflitos das relações entre os personagens mais velhos bastante interessantes. As mesquinharias, intrigas e o prazer com a derrota do outro. São coisas tão entranhadas no nosso dia a dia que você percebe o quão reais são essas situações, mesmo o cenário sendo o de décadas atrás.
     Sukhvinder negligenciada pelos pais, diminuída pelos colegas de escola, passa por todo o tipo de humilhação. Não existe nada que a diferencie dos demais, nenhuma característica relacionada à sua capacidade ou inteligência. Ela é negra. Isso basta para que sua vida seja o maior dos pesadelos. Krystal tem a mãe viciada e em tratamento numa clínica de reabilitação e um irmão pequeno pra criar. Criada em situações precárias, ela é rebelde e está sempre metida em algum tipo de confusão.
     A história se passa em Pagford, uma cidadezinha tipo um vilarejo, e Fields. Existe um abismo de diferenças sociais entre uma e outra, e os conselheiros do distrito pretendem fazer cada vez mais essa separação entre a considerada elite dos ricos e os pobres que recebem ajuda vital de instituições ali localizadas. Fairbrother era o elo entre as duas comunidades.
     Muitas cenas se desenvolvem de maneira forte e algumas chocam. É surpreendente o sentimento de empatia por certos personagens que o livro é capaz de gerar. De alguns dá pra sentir orgulho, de outros pena. A história é rica em detalhes e isso aprofunda bastante o texto.
     Temas diversos que estão e sempre foram parte da nossa realidade, e, se não da nossa, de tantas outras pessoas. O mundo não é o arco-iris que pintamos incessantemente enquanto a água da chuva insiste em desmanchar, e essas situações tão reais nos batem na cara e socam o estômago nesse livro de Rowling. Descontente fiquei apenas com o desfecho que, se pararmos para analisar, fez sentido e é condescendente com a história. Mas insisto em dizer que existia um final melhor para um certo personagem. O apelo é grande.
     Ao terminar o livro e perceber cada uma das sensações que ele me deixou, só sei pensar em quantas pessoas nas mesmas situações de Terri, Sukhvinder, Krystal existem por aí mundo afora. Quantos Robbies. Outra coisa é certa: Umbrella, da Rihanna, tem muito mais significado pra mim hoje.


Sobre a série:
     A série traduz perfeitamente aquela imagem que sempre rola pela internet da vida e diz que os livros são icebergs e as filmagens pontinhas de gelo. É uma minissérie composta por apenas três episódios que, por serem apenas três, jamais dariam conta de contar toda a densa história. Acontece que coisas importantíssimas ficaram de fora.
     Sukhvinder virou mera figurante. Absolutamente nada acontece com ela na série! Mal fala, a coitada, e isso me decepcionou muito. Gavin não existe, assim como o conflito de Gaia com Kay pela mudança pro vilarejo. Outra coisa que não existe e que te prende no livro são a repulsa cada vez maior de Samantha em seu relacionamento com Miles e, consequentemente, a obsessão pelo rapaz da boyband, que acaba levando-a a perder a linha totalmente na festa de Howard. Outra coisa completamente apagada: a festa de Howard. No livro, prato cheio de história, intrigas e polêmicas. Na série, esquecível. A história de Krystal com muito menos apelo, e as cenas consideradas fortes e chocantes no livro também não existem aqui. E o que dizer sobre o time de remo? Fairbrother incentivava as meninas da escola e criou um time de remo. Elas aprenderam muito umas com as outras e sobre si mesmas. Parte importante do crescimento delas e isso foi totalmente ignorado também.
     Embora sejam roteiros diferentes, a comparação é inevitável. Enquanto a história do livro nos apresenta todo um universo, a série ruma por uma imagem bem rasa de tudo. Talvez pela quantidade de episódios. Se fosse uma série normal, talvez pudesse ter sido fiel ou, ao menos, apresentado partes cruciais que ficaram de fora. Uma temporada só bastaria.
     O final também é diferente. Emocionante de todo jeito, mas com menos apelo também e com uma mudança, apesar de não ter sido a que eu gostaria. Teria ficado melhor da forma original, fecharia com mais sentido e mais carga dramática na história de certos personagens.
     A única coisa que eu gostei bastante na série, e que não existe no livro, é quando Terri começa a se recuperar e reconhece os esforços da filha. Até diz que ela é boa garota, e Krystal não sabe como lidar. É como se, pela primeira vez em muito tempo, não desse à todos a decepção que esperam dela.

     No final das contas, é uma história que mexe muito com você. E se você absorver de maneira reflexiva, perceberá que os personagens poderiam ser a sua vizinha de baixo ou então as pessoas do seu bairro. Se em ''Harry Potter'' Rowling nos apresentou um mundo fantástico de fantasia e sonhos, em ''Morte Súbita'' ela dá na nossa cara com a realidade diária, nua e crua. Recomendo a quem tenha largado que volte a ler. Foi um esforço que me valeu a pena.

18 comentários:

  1. Depois da sua resenha, até que me deu vontade de retomar do início. Li há algum tempo em algumas horas até a página setenta, depois passei uma semana enrolando, e quando peguei na página que havia parado não sabia mais quem era quem. É um livro para devorar dia após dia, o mais rápido possível, porque, sinceramente, são muitos detalhes e nomes que eu não lembraria facilmente. Tem um começo, como você disse, massante. Dá uma certa preguicinha, mas vou me esforçar, prometo.
    Gostei do jeito que resenhas.
    Um beijo ♥

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    1. Nossa, em algumas horas você chegou na setenta? Eu levei dias! Eu realmente levei muito muito tempo com esse livro. Quando resolvi que leria mesmo, passei os olhos pelas que eu lembrava de ter lido, pra refrescar, e fui em frente. Me ambientei fácil depois, mas foi duro. Quando peguei o ritmo, lia todo dia um pouco na hora do almoço no trabalho.
      Mas ó: vale mesmo o esforço, viu? Conversei com muita gente sobre ele. Todas que eu conversei, largaram no início. Convenci duas a voltarem depois que terminei hahaha.
      E obrigado! Fui bem mais detalhista nesse post do que no anterior sobre livro. Tentarei manter assim.

      Beijos! ♥

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    2. Haha, eu sempre leio até a página 70/100 no mínimo de primeira. Se for muito curto, tento ler no mesmo dia, se for longo, depende do quanto me prendeu para continuar. Só ultimamente que eu ando beeeeeeeem preguiçosa mesmo, mas vou melhorar rs.
      Vou me esforçar para continuar com ele, tem alguns personagens bem envolventes mesmo.
      E não precisa agradecer.

      PS: te achei no face kkkk mas não adicionei. Porquê eu não sei.

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    3. Ó!! (eu já tinha te procurado e achado também, admito). Vou adicionar então.

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  2. Babei na resenha!
    Acho que foi a melhor resenha que já li!
    E sinceramente dá pra notar uma visão do "futuro-diretor" aí, hein? Provavelmente por isso tenha ficado tão boa. Também gostei muito da comparação com a série!
    Parabéns!

    Um beijo.

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    1. Caramba! Muito obrigado, Tais! Fiquei muito feliz com seu comentário haha
      Existe muita coisa que eu mudaria na série, como diretor. Quem sabe uma hora né?
      Obrigado pelo carinho!

      Beijo

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  3. Eu ganhei esse livro de presente logo após o lançamento. Na época, amante da Rowling, eu devorei o livro independente dele ser maçante ou não. Mas fato, a leitura é difícil no início sim. Mas o que eu achei mais legal era como a história conseguia, a cada página, se "fechar" mais, e de pouquinho em pouquinho as pontas soltas iam encontrando o seu lugar e desempenhando um papel importantíssimo no desenrolar da história. E vamos combinar, pra mim, esse é o ponto forte da Rowling!
    Agora, o final fica a parte. Também achei fraco, da mesma forma que achei o final de Harry Potter fraco :/
    Agora, a série eu nunca vi, e acho que vai continuar assim! :p

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    1. Também achei bem bacana como as coisas iam se encaixando e fazendo total sentido no desenrolar da história. Conheço pouco da escrita da Rowling, só li um dos Harry Potter's. Estão na minha lista, eu prometo!

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  4. Também demorei a empolgar lendo O Chamado do Cuco e acabei gostando bastante.
    Esse será uma das minhas próximas leituras e, pelo jeito, terei que exercitar minha persistência...kkkkkk
    Pretendo acompanhar a série somente após a leitura.
    Abraço!

    SUA ESTANTE
    Gatita&Cia.

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    1. To bem curioso pra ler esse ''O Chamado do Cuco''. Me recomendaram bastante num post que fiz falando no facebook. Exercita sim, esse livro vale a pena, Tatiana!
      A série é até bacana também. Como gostei muito do livro e ainda não queria me desprender, foi bom assistir. Alguns dos personagens eram exatamente como eu havia imaginado!

      Abraços =D

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  5. Olá. Johnny. Tudo bem?
    Ainda não li na da autora, J.K. Uma vergonha, não é?
    Tenho bastante curiosidade em ler, Morte Súbita. Todas as resenhas que leio, inclusive a sua me passam a ideia de ser um livro de escrita densa, reflexiva e bastante real.
    Até mais. http://realidadecaotica.blogspot.com.br/

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    1. Ei Renato! É a mesma autora de Harry Potter! Mas eu entendo, só li um dos sete hahaha. Pretendo ler os outros ainda.
      É uma escrita densa sim e as situações casam demais com tudo o que vemos dia após dia na nossa vida. Vale a leitura!

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  6. Adorei sua resenha! :O Uma das melhores que já li, sem dúvidas. A forma como você escreve é excelente, simples e requintada. rsrs Parabéns!

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    1. Ooh que bacana! Muito obrigado!! Fico muito feliz em ler isso. Espero que goste dos posts, tem bastante coisa legal por vir.

      =D

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  7. Eu gostei desse livro, deve ser porque comecei sem expectativa nenhuma, e devorei ele em três / quatro dias. Eu não sabia sobre a série, vou procurar e ver se me interessa. Sem dúvidas, há bastante personagens cativantes, e adorei tua resenha! Beijão.
    4sphyxi4.blogspot.com.br

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    1. Eu comecei com um pouco da imagem de arrastamento, talvez isso tenha influenciado um pouco no tempo que levei pra terminar. A série é interessante como complemento, mas acho que peca na falta de alguns detalhes preciosos.
      Que bom que gostou, fico feliz!
      Beijos

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  8. Adorei a resenha! Esse livro me pegou de jeito, eu estava a procura de alguém que não criticasse negativamente o livro simplesmente porque esperava algo mais Harry Potter. A história é ótima, e nos escancara muito bem o comportamento humano em vários aspectos.

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    1. Eu acho que esse é um grande problema do leitor em geral, isso que você disse sobre esperarem uma coisa mais Harry Potter. As pessoas precisam ler de mente aberta e entender que muitos universos habitam a mente de um escritor. Esperar uma história com a mesma pegada é bobeira.
      A história desse livro é muito boa e eu espero que tenha te impactado tanto quanto me impactou.

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