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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Luisa Sonza é melhor do que você pode imaginar

          Já faz algum tempo que eu converso com alguns amigos sobre a Luisa Sonza. Ela, atualmente, é uma das artistas mais populares na internet, com um vasto número de seguidores. No twitter ela já passa de 900 mil. No instagram são mais de 15 milhões!
          Sonza cresceu na internet através de covers no youtube e em 2017 lançou seu primeiro EP digital pela Universal Music. Assim como os meus amigos, eu já tinha ouvido falar dela aqui e ali mas ela só foi me bater mesmo muito tempo depois, daí comecei a voltar e pesquisar e descobrir várias coisas.
          As músicas "Devagarinho" e "Boa Menina" tem certificado de diamante e de ouro, respectivamente. Os videoclipes também bombam no youtube! ''Devagarinho'' conta com 73 milhões de visualizações, ''Boa Menina'' já tem quase 80 milhões, e foi com essa música onde eu comecei a acompanhar mais de perto o trabalho da artista.
          Luisa ganhou o premio de Revelação Musical pelo "Premio Contigo! Online 2019", que é aberto a votação popular, além de já ter ganho vários outros prêmios, como "Melhor Cover da Web", pelo Premio Multishow 2017, "Revelação do ano" no Women's Music Event Awards 2018 e por aí vai.
          No ano passado, seu álbum de estréia, "Pandora", teve parceria com a drag Pabllo Vittar em "Garupa", que foi um estouro de streams. Luisa disse que gravaria clipe para todas as músicas e, atualmente, quase todas já tem vídeo mesmo. "Pandora" marca a transição para uma sonoridade mais madura e ao mesmo tempo experimental. O conceito do álbum é mostrar as várias facetas dela como artista e a capa representa isso de maneira impecável. Ao mesmo tempo em que temos os batidões de "Pior Que Possa Imaginar" e "Fazendo Assim", com participação de Gaab, temos "Apenas Eu", com bastante influência gospel, contrastando com o experimento em "Saudade da Gente" e a romântica "Bomba Relógio",  que conta com a participação de Vitão e parece ser a favorita dos fãs. Nenhuma das 8 faixas deixa a desejar e a versão física ainda ganhou como faixas bônus os sucessos já citados aqui e que projetaram ela pro Brasil: Devagarinho e Boa Menina.

          O grande lance da Luisa é que ela é firme demais! E essa é uma das coisas que eu acho mais interessantes nela. Isso me abriu portas a conhecer, de fato, o seu trabalho. Numa ocasião ela desceu de um avião ao saber que compartilharia o voo com o, até então, candidato a presidência. Noutra, pulou fora das gravações do dvd de um cantor tão logo ele deu uma declaração transfóbica, mesmo sabendo da visibilidade que isso traria pra ela. O que eu quero dizer com isso é: ela se sustenta. E se sustenta muito! Fiel aos seus ideais, Luisa não se esconde de firmar suas opiniões e de dizer em alto e bom tom: ''eu sou assim e se você não gosta o problema é seu".
          Existe uma grande preocupação por parte dela em ser leal ao que acredita e conseguir passar isso de maneira certa ao seu público. Ela analisa bastante as parcerias que faz e é muito verdadeira com relação ao que sente e o que pensa sobre os assuntos. Não foge da raia na hora de se posicionar e incentiva, sempre, a força e o direito da mulher fazer o que quiser fazer.
          Nas letras, com frases como ''um homem que é homem de verdade cria o filho mostrando pra ele o que a vida tem pra dar'' e ''não deixem te dizer o que deve fazer, (...) não me interessa o que pensam de mim'' ela mostra que não tá nem aí mesmo. Como mulher, julgada por ser sensual ou por mostrar o corpo, mostra que está bem consigo mesma e que se alguém vem pra ofender, o problema está com a pessoa e não com ela. E como um bom funk pop que a gente gosta, dá-lhe dança e batidão.
          Luisa usa da visibilidade que tem pra levantar discussões atuais, bandeiras empoderadas e feministas e pra ajudar a dar atenção às causas importantes e sociais. Ela é confiante, decidida e tá pior do que cê possa imaginar!
          Depois do lançamento de Pandora, ela segue firme nos projetos. Fez participação internacional na música "The Weekend" da boyband canadense PRETTYMUCH, a qual tive a grande oportunidade de fazer a cobertura do lançamento pro site Hashtag Pop no mês de novembro passado, na Casa do Popline. Fez parceria também com o PK na baladinha "Tudo de Bom" e teve o hit "Combatchy", parceria explosiva com Anitta, Lexa e Mc Rebecca. Os planos pra 2020 reservam ainda mais surpresas.

          Recém capa da Forbes, como destaque na lista de milionários com menos de 30 anos, ela constantemente recebe uma chuva de críticas na internet. As críticas vem porque muita gente costuma demonizar o sensual, a ousadia, o exagero e até mesmo as falas políticas. Viemos de uma geração que ainda está muito presa aos chamados ''valores tradicionais'' ou ''bom comportamento'' e que cresceu reprimida e julgadora, sem nem mesmo ter o viés pra isso. Quem é que decide como é que o outro deve ou não viver e se expressar, afinal? O que é considerado ofensivo e o quem define isso? O quanto de direito temos de apontar para o outro e dizer coisas cruéis sem termos a responsabilidade emocional acerca das consequências disso? Esse é o tipo de coisa em que eu me pego pensando quando vejo alguém criticar artistas como a Luisa e a Anitta, mas que dá todo o suporte para as gringas tipo a Shakira, Rihanna ou Britney.
          A diferença está nas culturas ou na síndrome de vira lata, que parece nunca nos deixar?
          Após o lançamento da Forbes, Luisa postou um texto falando sobre tudo isso:

''Já fui chamada de tudo um pouco desde que apareci nessa internet. Interesseira, puta, burra, encostada, vagabunda, entre outros milhares de adjetivos que leio desde que eu tinha 17 anos.''
''Hoje eu sou milionária e ganho tanto quanto o meu marido, tenho a carreira totalmente independente em outra área que não tem nada a ver com o trabalho do meu marido, mas até hoje se eu ler qualquer comentário em algum site de fofoca sobre mim lá vai estar ''arrancando todo o dinheiro do Whindersson'', ''Whindersson comprou a carreira dela'', ''Whindersson que paga as coisas'' e assim por diante, mesmo eu e ele dividindo até a conta de luz. A real é que é difícil aceitarem uma mulher de sucesso. Mas vocês vão ter que engolir.''

          Em tempos difíceis como os de hoje é preciso falar. É preciso ter sua voz ouvida e é preciso fazer isso de todas as formas possíveis. Seja através da arte, de um projeto ou de atitudes no dia a dia mesmo. É muito bacana ver artistas importantes dessa nova geração mostrando isso pra galera mais nova. Luisa faz parte do time de artistas que falam (e muito!) sobre igualdade, liberdade, diversidade. O pop no Brasil nunca esteve tão bom como atualmente. Artistas como Iza, Gloria Groove, Pabllo Vittar, Anitta, Lexa e a própria Luisa vêm redesenhando esse cenário e conquistando um espaço cada vez maior pra eles e pro seu público, além de incentivar toda uma leva de outros artistas a fazerem o mesmo. Promover a discussão, inclusão e assuntos tão importantes junto com entretenimento é mais do que necessário e é animador saber que ela não vai mais parar!

         

terça-feira, 19 de julho de 2016

Briga de pequenos gigantes e o que está acontecendo na nossa cultura

     Observar a proporção que o marketing Taylor Swift X Kanye West tem tomado vem ficando assustador. Mas, assustador mesmo é ver os comentários e argumentos da galera pela internet em defesa de um ou de outro.
     Taylor Swift, há muito, é um monstro da indústria musical em termos de vendas, charts e exposição em geral. O início do revés que tanta exposição pode causar se deu ao vivo em rede mundial quando foi humilhada por Kanye West, que, sabe Godney como, achou que era uma idéia muito cool invadir o palco na hora em que ela foi agradecer pelo prêmio, pra dizer que ela não merecia.
     Cada um de nós tem o direito de gostar ou não de certo estilo musical ou cantor, mas usar disso para implicância pura e dizer que ''a máscara de santa caiu" diante de algo claramente manipulado é condenar o outro em cima de achismo e de gosto pessoal, coisa que vai além do que é real em si. Na ''exposição'' arquitetada por Kim Kardashian, podemos ver um vídeo (pra começo de conversa: com que outro intuito estaria sendo gravada essa ligação?) no qual Kanye fala para Taylor sobre a tal ''Famous''. Basta ter um pouco de atenção e julgamento neutro pra perceber que em nenhum momento ele deixou explícito como seria a música, ou tocou para que ela pudesse ouvir. Também não foi dito à Taylor que colocaria uma réplica dela NUA na cama com ele. Foi uma conversa amigável e em tom de brincadeira e descontração.
     As pessoas enxergam o que querem enxergar, muitas vezes ignorando os fatos realmente relevantes. Basta uma rápida olhada no clipe para ver o tom de ofensa nos versos ''Taylor e eu deveríamos fazer sexo porque eu fiz aquela vadia famosa", enquanto a mostra nua na cama ao seu lado. Existem tantos, TANTOS problemas nessa narrativa que poderíamos encerrar por aqui mesmo. Mas ainda temos Kim.
     Não parando por aí, Kim Kardashian, esposa de Kanye, com unhas e dentes surgiu para defender a honra de seu marido machista. Sendo, talvez, ainda mais machista que o próprio e achando que estava arrasando ao publicar um vídeo de uma conversa sem conteúdo. Tantos problemas por aqui também que merece um post só pra desconstrução dela. Fica pra outra hora.
     Perfeição não existe. Taylor está longe de ser santa ou de ser exemplo de garotinha inocente. A superexposição da imagem dela a fez saturar, sim, mas jamais deve-se aplaudir ou dar razão a qualquer celebridade machista, manipuladora e opressora. Isso vem da cultura de culpabilização da mulher. Basta perceber que nessa briga Kim X Taylor, o verdadeiro errado é ELE. Kanye foi até deixado de lado, quando tudo isso está aí por causa dele. Cabe a cada um de nós perceber o que realmente está acontecendo por trás disso na nossa cultura. E isso é muito maior do que Taylor Swift ou Kanye West

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O lado B de Britney - A história de Mona Lisa

     Muitos são os sentimentos quando se fala de Britney Spears. O ícone que está há duas décadas trazendo novos hits e redefinindo a sonoridade pop gera controvérsia até hoje. Muita gente não acompanhou tão de perto, conhece as músicas antigas e o que veio na fase ''pós-surto'', e tem uma vaga noção de tudo. O que foi ''o surto''? Ela não é mais a mesma! Não dança, não canta. Quem é Mona Lisa? Playback! Fato é: Desde que sua estrela ascendeu lá na época do Clube do Mickey e ela estourou com "...Baby One More Time" anos mais tarde, Britney sempre teve carreira - e vida - incomum das demais cantoras de sua época. A gente tem costume de falar ''imagina só ter seus passos seguidos, fotografados, escancarados desde a adolescência para o mundo todo, ser seguido 24 horas por dia'' pra tentar justificar, mas não dá. Não dá pra sequer imaginar o nível de insanidade e obsessão que a mídia tomou pela figura de Britney.
     Desde que assinou com a Jive e teve seu nome e sua marca amplamente divulgados, ela foi ganhando cada vez mais força. Muitos especulavam que era um produto cuidadosamente montado num marketing pra vender. Quanto mais ela aparecia, mais se falava. Até a mídia negativa refletia positivamente. Britney era um meteoro. Até 2004 colocou todos os álbuns lançados em #1, vendia milhões. Tudo que ela tocava virava ouro. Cantou com Madonna, cantou com Michael Jackson. Artista mais jovem a ter sua estrela na calçada da fama, inúmeras conquistas e recordes. O que pode ter dado errado no meio de tanto sucesso?
     O início da fase punk de Britney Spears começou enquanto ela estava envolvida com Kevin Federline. Ela já andava estafada da carreira e da perseguição, e o novo romance só fez aumentarem as polêmicas. Depois do sucesso do In The Zone, Britney e sua gravadora começaram a ter divergências artísticas. Ela, com a língua cada vez mais afiada, queria novos estilos e músicas que batessem de frente com a mídia e escancarassem o quanto ela não dava a mínima pra tudo aquilo. Ela queria, cada vez mais, formar uma família e viver uma vida simples. Em 2006 postou em seu site oficial um trecho da música Rebellion. Nessa época já circulavam teorias sobre um suposto alter ego de Britney, que seria manifestado pela cantora quando ficava morena. Vários registros foram feitos mais tarde dela falando num sotaque britânico, e relatos de pessoas próximas confirmaram que era como se ela se passasse por outra pessoa. Mais tarde esse alter ego tomou a forma da famosa peruca rosa também.
     Enquanto o embate com os paparazzi se tornava cada vez mais monstruoso, Britney enfrentava o divórcio pouco após o nascimento do segundo filho. A pressão aumentava cada vez mais e ela se sentia cada vez mais sozinha. Passou a cair em noitadas, virou bff de Paris Hilton e as noitadas das duas eram prato cheio para os tablóides. Fizeram-na parecer irresponsável, tiraram-lhe os filhos. A pressão aumentava e ela cada vez mais sozinha. Lucky nesse momento soava até profética. Mas a verdadeira profecia viria a seguir: Mona Lisa. Em meio ao circo que se armava, Britney continuava trabalhando. Dirigiu um de seus clipes e assinou como Mona Lisa. Gravou diversas músicas para um album que intitulou de Original Doll, e, sem a permissão de sua gravadora, foi até a rádio divulgar o primeiro single de trabalho. Mona Lisa era o nome do desabafo raivoso musical.

''Senhoras e senhores eu tenho uma história para contar. É sobre Mona Lisa e como ela caiu repentinamente. Todos a conheciam muito bem e agora eu estou contando para libertá-la de sua própria maldição''.

(a música começa em 1:24, antes a entrevista na qual ela fala sobre o Original Doll)

     O tom de voz de Britney era agressivo, ela desafiava quem ouvia, soltava interjeições e afrontas. A voz, o mais crua o possível, contrastava com o instrumental sombrio e misterioso da música. Existe até mesmo uma passagem fúnebre no meio. O enterro da estrela. Fala sobre como a mesma mídia que a fez famosa, a destruiu. A ascensão e a queda. Queriam o breakdown e agora era hora de deixá-la quebrada. O projeto do album era afrontar mesmo a mídia e as cópias dela que apareciam a todo momento. A gravadora ficou furiosa, vetaram tudo relacionado a esse projeto, apesar dos protestos e do trabalho de Britney em tantas músicas como Baby Boy, State Of Grace, Let Go, Sugarfall, Pull Out e a própria Rebellion. Tempos depois quiseram calar Mona Lisa. Regravaram os vocais de Britney em tons amenos, descarregaram a raiva da música e mudaram as batidas para uma sonoridade bem pop, pra não pegar mal. Ridículos. Existe um vídeo onde os paparazzi chegam até ela e ela vai passando música por música desse trabalho. Vídeos, como existem vídeos desse período. Num deles, ela, novamente com o sotaque, ironiza os tablóides e todas as mentiras que escreviam sobre ela para vender. Gravidez, alcoolismo, drogas. Peso. Já é um saco ter que lidar com a opinião de quem tá ao nosso redor; família, amigos, dando pitaco em coisas que não lhes dizem respeito. Imagina ver isso milhares de vezes em todas as revistas e sites pela internet. Não dá.
     Outro mal se instalou na vida dela: Sam Lufti. Entrou no momento em que ela estava mais vulnerável devido a perda da guarda dos filhos e tomou controle de tudo. Britney rompeu com Larry Rudolph, seu empresário desde Baby One More Time, se afastou da família e dos poucos amigos que restaram. O abuso psicológico que esse cara fazia com ela era coisa de psicopata. Inventava coisas, fazia ela chorar, achar que estava louca. Estava ficando. Depois de muito sofrer nas mãos dele, hoje existe uma ordem judicial de restrição. Ele não pode sequer se aproximar dela. Tal medida foi tomada depois de comprovado que o ''ex-empresário'' a drogava constantemente, o que veio a causar inúmeros distúrbios e o diagnóstico de bipolaridade mais tarde. Bipolaridade, bem como depressão, é coisa séria, é doença. Precisa de tratamento, não é frescura ou necessidade de atenção.
     Britney chegou a ser retirada de casa numa maca, com direito a cobertura de helicópteros e tudo, depois de não querer devolver os filhos para Kevin numa das visitas. Foi internada, dada como louca, drogada, incapaz. Estava doente, perdendo sua sanidade pra loucura que a indústria tornou tudo aquilo. Diagnosticada como bipolar, passou a fazer tratamento e a tomar remédios fortíssimos para controlar sua ansiedade. Os efeitos eram visíveis. Em várias aparições públicas ela parecia outra pessoa. Lesada, dopada. Ela só queria uma vida normal com os filhos longe daquela insanidade toda. Raspou a cabeça como símbolo de recomeço, de estafa da situação toda, como beirada do precipício. Bateu no fotógrafo com um guarda-chuva verde. Vídeos onde ela sequer conseguia caminhar dentro de um supermercado de tantos fotógrafos com flashes NA CARA dela eram comuns. Vídeos registrando ofensas de gente que passava na rua também. Num deles, a irmã foi brigar em defesa dela. Vídeos aonde os fotógrafos vão contar que a irmã dela está grávida. Vídeos. Flashes. Vídeos. Flashes. Chega!
     A fama é uma coisa muito louca. Em proporção mundial, ainda mais. É incontrolável. É uma indústria fria e cruel que te suga e te joga no lixo feito um pedaço de papel amassado. Britney carrega sequelas irreparáveis dessa época e pra sempre será assim. Por muito menos tem gente que não resiste. Insanidade.
     Hoje, vive sob a tutela do pai. Uma medida judicial que dá a ele o controle absoluto sobre tudo na vida dela, como se ela fosse menor de idade. Foi necessária na época antes que algo irreversível acontecesse com ela. Mas, nesse caso, a tempestade e o furacão passaram antes. Hoje tem os filhos de volta, já não precisa fazer testes pra provar sua sobriedade e nem circula mais sob tantos rótulos sádicos e maldosos. As marcas da fase obscura, do olho do furacão, ficaram. Como descrito por ela mesma numa entrevista, ela já esteve nos dois extremos. Hoje, paira sob o equilíbrio de uma vida estável sem tanta exposição.
     Aos que dizem que ela não é mais a mesma de antigamente, eu digo: não é mesmo. Jamais será. Em dois anos essa mulher viveu situações tão intensamente carregadas que lhe renderam experiências terríveis de dez. A espontaneidade, recuperada parcialmente, hoje é mostrada com atitudes e passos extremamente pensados e planejados. Ela não quer correr o risco de passar perto de chegar a ter novamente a exposição de sua vida que já teve um dia. Vê-la se apresentar numa premiação para o mundo novamente em 2016, depois do massacre que sofreu por anos pela apresentação de 2007, é uma vitória inestimável a todos que gostam e torcem por ela. Britney é a prova viva de que se pode superar as situações mais tenebrosas, bizarras, da vida. Exemplo de superação hoje saudável e feliz.
     Certas coisas nunca mudam. Sempre esperam demais dela, sempre esperarão. Por mais que ela se empenhe, por melhor que execute cada um de seus trabalhos, a mídia e o público sempre estará acompanhando cada um de seus passos, prontos para apontarem e despejarem suas opiniões pessoais. Seja para o positivo ou para o negativo, quer você goste ou não dela, Britney Spears é um nome que para sempre ficará gravado na história da música.
     Mona Lisa se apresentou, contou sua história e se foi. Hoje descansa em algum canto dentro das várias personas que Britney desenvolveu.

Mona Lisa's got to fly. She's been gone.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A liberdade sexual de Kesha e o empoderamento das mulheres

     Feminismo sempre foi pauta de grandes discussões ao longo dos anos. Grandes movimentos, manifestações, reivindicações. Conquistas de direitos. Certo. Com o boom das redes sociais nos últimos anos e o crescimento cada vez maior dessa terra de ninguém, cada vez mais pessoas têm puxado debates sociais interessantes, especialmente no Facebook. Feminismo, racismo, homofobia, transfobia, aborto, mais escolas, menos cadeias, redução da maioridade penal, a culpa é da Dilma! Se ela sair, quem assume é o Aécio? E por aí vai. Onde eu quero chegar com isso? Acredito que a onda de problematização de tudo veio, mais forte do que nunca, junto com esse boom. Isso é muito mais importante do que aparenta ser pra quem se julga ~~de boa. Eu mesmo, quantas atitudes reconheci em mim? A gente não se dá conta, às vezes, do machismo que reproduzimos. São coisas tão enraizadas na nossa cultura que nem percebemos muitas dessas atitudes.
     Desviando um pouco para as influências midiáticas de hoje em dia: cantores, atores, celebridades em geral; formadores de opinião. Cada um busca/tem seu próprio espaço e quer se fazer ser visto/ouvido. A questão é: o que essas pessoas têm a dizer?
     Dentro de todas as personalidades da mídia no meio pop internacional, uma em especial sempre me chamou a atenção: Kesha. O simples fato de ela incentivar seus seguidores a serem quem eles realmente são já me pegava. Parece clichê, eu sei. Mas não é bem assim. Veja bem, quantas cantoras temos por aí com o discurso semelhante? Aos montes, talvez. Mas o quanto a vida artística de cada uma delas tem realmente a ver com sua vida pessoal? Esses dias mesmo uma amiga me perguntou "Ela é toda loucona assim mesmo?". Temos aí músicas motivacionais: Firework, Beautiful, Born This Way. É bonito, é bacana. Todo incentivo à auto-aceitação é bem vindo e o apoio à causa faz-se mais do que necessário. O que sempre me chamou atenção na Kesha é que ela não separa a persona do palco e da mídia de quem ela realmente é. A maioria dos artistas criam uma espécia de alter ego, personagem, para o showbussiness, até como forma de preservação pessoal. Kesha não. Sua música soa despretenciosa: ''vamos dançar, nos divertir, beber e tocar o foda-se para o mundo'', mas é um pouco mais além do que isso. Ela não quer estar a frente, no topo, ditando. Ela quer estar no meio, ela faz parte disso tanto quanto qualquer outro. O grande diferencial nela, como artista, é essa extrema proximidade que ela mantém com seu público, ela faz parte deles. Já fui em alguns shows internacionais e sempre digo (Britney, mulher, te amo, me perdoe): não tem show igual ao da Kesha. A conexão que ela tem com o público é algo surreal.
     Partindo disso, voltemos às músicas. Não tão recentemente assim, Kesha abriu um processo contra seu empresário e produtor acusando-o de abuso sexual e tortura psicológica. Incontáveis relatos da cantora sobre diversas experiências, humilhações e chantagens pelas quais passou. Do outro lado, o hitmaker Dr. Luke, consagrado hoje por ser responsável por muitas das músicas que ouvimos durante esses anos todos de Katy Perry, Britney Spears, Miley Cyrus e por aí vai. O processo se arrasta desde 2014. Ela quer a quebra de um contrato diabólico que assinou quando era mais nova que não permite que ela faça absolutamente nada sem o consentimento dele. Ela não pode fazer sua música. Vida e carreira estão paradas presas à sombra do que ela já foi. Enquanto o processo não é julgado, e uma sentença não é proferida, ela pede permissão para tocar sua carreira - sem ele - até que a decisão saia. O julgamento está marcado para o dia 19 de fevereiro.
     Li, recentemente, várias notícias sobre o caso e o que me entristeceu foi que, na maioria delas, os redatores classificavam o caso como ''exagero'', ''sem sentido'' e até mesmo que ''era de se esperar, pois ela canta, em sua maioria, sobre sexo e festas''. Gente, não! É exatamente nesse ponto que eu quero chegar. Se o homem, o cara fodão, o rockstar canta sobre sexo ele é badass. Se a mulher, cantora pop ou não, canta sobre sexo ela é uma vadia sem respeito que não surpreende quando afirma ter sofrido qualquer tipo de abuso. Isso porque nem entrei no mérito de outras músicas, ainda mais sexuais do que o pop. Não é assim que funciona, que deveria funcionar. A maneira com que ela realmente fala sobre suas experiências nas músicas sempre me chamou a atenção. A amiga que rouba o carro dela e sai contando sobre a sua vida sexual na intenção de difamá-la, ou o cara a quem ela dizia pra não se preocupar, ela só quer estar entre os lençóis dele e depois ir embora. A liberdade sexual nas músicas, nos shows, é real. E é tão real na vida dela como na de qualquer um de nós. Todos temos relações assim, todos fazemos sexo. Aí, porque a mulher retrata isso de forma natural numa música, num videclipe, ela é taxada, julgada, por nós que somos exatamente iguais (e por vezes até piores)?
     A liberdade sexual da Kesha está em viver uma vida realmente livre, sem repressões. Ela faz o que quer, quando quer. É dona de seu corpo, tem conhecimento dos seus limites e prazeres. Isso, ainda hoje, parece ser tabu pra muita gente. Não deveria. Por que fazer e falar sobre sexo casual pra uma mulher é absurdo, desrespeitoso, passível de abuso (de qualquer tipo) e pra um homem é símbolo de masculinidade? Crescemos e aprendemos tanta coisa que não percebemos ser problemas que mais tarde se tornam maiores ainda. A desconstrução de padrões é necessária. A discussão é válida.
     Estamos num momento onde discussões sobre a mulher e papeis de gênero têm ganhado mais e mais visibilidade, e isso é ótimo. O feminismo tem sido mais debatido e, principalmente, entendido. Igualdade de direitos. Discussões acerca de assuntos como violência contra a mulher, campanhas pelas redes sociais têm feito as denúncias aumentarem. É necessário. É importante para que quebremos mais essa barreira. O empoderamento feminino tá aí mostrando que mulher não é aquela figura mitológica frágil, delicada, fofa. Nem tem que ser. E isso vem sido cada vez mais percebido, mudado. Desconstruir esses conceitos é difícil, mas, mais uma vez, necessário.
     Se Kesha, famosa, rica, dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade, passa por esse tipo de coisa e é taxada de louca, de exagerada, pior, de merecedora (!), quantas outras mulheres, invisíveis aos olhos do grande público, muitas vezes invisíveis aos olhos dos próprios familiares e amigos; quantas mulheres ainda passam por situações dessas e até piores? Estamos cercados por elas, mas não sabemos. Enfrentar um opressor é tarefa difícil. E, por opressor, digo em qualquer tipo de situação. Abuso de qualquer forma, de qualquer pessoa. Agressão física, psicológica. Bullying. Englobe aqui todas as coisas. Que possamos enfrentá-los. E, mais do que isso, que possamos ajudar e dar espaço a quem precisa enfrentá-los.