Irritado, ele arrancou o isqueiro das mãos dela antes que pudesse acender.
- Merda, Rayna! Quer mandar essa droga pelos ares?
- Eu já estou de saco cheio de ficar escondida nesse depósito fedido. - ela rebate, andando até um banco de madeira encostado numa das paredes e se senta. - Quando vamos finalmente colocar alguma ação nisso?
- Essa é a única data que temos em que a vila não estará focada nas defesas. O Natal sempre chega pra todo mundo, é como um acordo mundial de paz. - anda até ela, a encara e devolve o isqueiro. - Ou trégua.
- Acha mesmo que essa gente vai respeitar isso? O comandante deles é uma aberração! É surreal esperar uma espécie de reconciliação entre os clãs. Especialmente depois do ataque disfarçado na semana do Halloween. Eles estão com as crianças, e se Luna não tiver conseguido se misturar como esperamos que tenha conseguido, tudo isso será inútil!
- O comandante deles consegue do povo o que quer porque mantém as tradições deles. São um povo extremamente religioso. Essa será uma ''semana de celebração e surpresas incríveis''. - diz em tom de deboche, lendo um panfleto amassado.
Rayna e Caio conversam em tom baixo, atrás de dois armários de mantimentos num celeiro antigo, usado como depósito pelo Clã Gardestrike. Há cerca de um mês, o comandante quebrou o acordo de união entre os 5 clãs e atacou a vila deles, matando 29 pessoas e sequestrando 9 crianças. As 9 crianças, membros de um grupo seleto de jovens feiticeiros em potencial, recebiam treinamento especial para desenvolver suas habilidades em campo, de acordo com as teorias dos grandes ancestrais. Luna, a herdeira do trono do Clã Seavell, tem uma inteligência muito superior à sua idade aparente. Desenvolveu tecnologias que se fizeram necessárias na defesa de sua vila. Uma vila muito mais avançada tecnologicamente do que sua frágil aparência mostra.
- Eles não farão mal à Luna. Precisam do seu conhecimento.
- Ela é só uma menina! Não deveria estar enfrentando esse tipo de coisa. - Rayna altera o tom de voz. - Nenhum de nós deveria!
- Vamos resgatá-la, e quando dermos fim nessa loucura o acordo de união prevalecerá. Nenhum dos outros clãs ficará contra nós. - Caio está sentado no chão, olhando confiante para Rayna.
- Algo não está certo... Esse ataque não faz sentido. - ela levanta e começa a caminhar pelo pouco espaço livre na bagunça do depósito. - As movimentações na vila não parecem naturais. Hoje pela manhã, bem cedo, ouvi dois guardas conversando. Eles falavam sobre uma grande virada inesperada. Falavam sobre o lendário livro da primeira comandante. Como se fosse... real.
- Eles são fanáticos religiosos, Ray. Essas datas mexem mais do que o normal com os poucos neurônios deles. - fala com desdém.
- Caio, eles falavam sobre uma cerimônia. - diz aflita. - Não dava pra identificar todas as palavras, mas uma cerimônia envolvendo o livro. Envolvendo Luna. Acreditam que esse Natal trouxe a dádiva esperada, o presente destinado.
- O diário de Gaia é lenda, Ray. Assim como todas as crenças que nos foram ensinadas na infância. Você sabe que muitas das histórias não são verdade. - ele diz, impaciente.
Ela o encara por alguns instantes antes de provocar.
- Você não me parece mais tão certo disso.
Caio se irrita, levanta e caminha depressa até ela. Ao ficar cara a cara, tira um punhal do bolso e aponta para seu rosto.
- Que se dane esse livro maldito! Não deixarei que encostem em Luna ou em qualquer outra das crianças. Vamos agir essa noite. - ele brada, ofegante.
Eles se encaram em silêncio enquanto a respiração de Caio volta ao normal. Ele abaixa o punhal e volta a se sentar no chão. Rayna sorri.
- O diário de Gaia é lenda, Ray. Assim como todas as crenças que nos foram ensinadas na infância. Você sabe que muitas das histórias não são verdade. - ele diz, impaciente.
Ela o encara por alguns instantes antes de provocar.
- Você não me parece mais tão certo disso.
Caio se irrita, levanta e caminha depressa até ela. Ao ficar cara a cara, tira um punhal do bolso e aponta para seu rosto.
- Que se dane esse livro maldito! Não deixarei que encostem em Luna ou em qualquer outra das crianças. Vamos agir essa noite. - ele brada, ofegante.
Eles se encaram em silêncio enquanto a respiração de Caio volta ao normal. Ele abaixa o punhal e volta a se sentar no chão. Rayna sorri.
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Numa sala de estar, um soldado está largado no sofá assistindo televisão. Uma porta se abre atrás dele e outro soldado entra.
- Já levou a comida das que estão aqui hoje? - ele pergunta
O soldado do sofá nem se mexe.
- Tentei levar pela manhã, mas a do olho cinza me atacou e derrubou tudo. Joguei de volta nela e disse que elas não comeriam hoje mais, em castigo pelo desaforo.
- Já é quase meia-noite! Você sabe que o comandante precisa delas em bom estado. - diz o soldado, que agora está no balcão da cozinha abrindo dois potes cobertos com papel alumínio.
É uma casa bem simples, de pequenos cômodos. Além da sala/cozinha e do quarto onde as crianças estão, apenas um banheiro no fim do corredor.
- Não to nem aí. Que morram de fome, não posso obrigá-las a comer. - os olhos imóveis fixados na televisão.
O soldado pensou em retrucar, mas apenas tratou de arrumar a comida em dois pratos e voltar pela porta de onde entrou.
A madeira velha do piso da varanda de frente da casa range em resposta a passos pesados, anunciando a chegada de alguém. Pouco antes de sequer baterem à porta, ela se abre revelando o soldado que estava deitado, agora armado.
- Parece que o Natal se antecipou esse ano. - disse sorrindo e abaixando a arma, dando uma conferida na roupa da Mamãe Noel à sua frente. - Luna, venha ver quem veio nos visitar! - gritou para dentro da casa, segundos antes da bala do revólver do Noel entrar na sua cabeça.
Esse post faz parte do projeto intitulado ''Baú na Estrada'' em parceria com a Beca, do Café de Beira de Estrada, no qual postaremos em quartas alternadas um texto de acordo com tema sugerido um para o outro.
O texto dela dessa semana você pode ler clicando aqui!
