sábado, 20 de abril de 2019

Séries │ Boneca Russa

          Assistir séries novas é sempre mais uma vontade do que uma realidade na minha vida. Normalmente é preciso uma força maior (geralmente um feriado prolongado ou um fim de semana de folga). Fato é: esse fenômeno nada natural aconteceu e com isso pude assistir Boneca Russa! Já haviam me indicado a série, mas eu, quando peço indicação, peço em geral só o nome pra evitar qualquer tipo de spoiler. Quanto mínimo de informações eu tiver sobre a obra, melhor. Sempre fico muito satisfeito quando consigo pegar algo do total zero e ir me surpreendendo com os desfechos. Com essa série não foi diferente.
          A série é uma produção original da Netflix e foi criada pela Natasha Lyonne, que interpreta a personagem principal, juntamente com Amy Poehler e Leslye Headland. Ela conta a história de Nadia, uma jovem adulta de personalidade forte que se vê presa num looping onde morre e revive a mesma noite. Ela questiona sua própria sanidade e tenta trilhar caminhos diferentes.
          A comédia dramática é gostosa demais de assistir e é cativante desde o começo. Eu simplesmente não consegui parar e assisti a temporada toda num dia só. São o total de 8 episódios com cerca de 25 minutos de duração cada, bem tranquilo.

          Eu não conhecia o trabalho da Natasha ainda, mas depois de me apaixonar pela Nadia, pesquisei mais sobre ela. Ela tem uma filmografia bastante extensa repleta de filmes de todos os gêneros e séries.
          Nadia tem uns traços muito marcantes em sua personalidade. Ela usa de um sarcasmo com o qual me identifico bastante, mas não é só isso que me chama atenção nela. Ela está sempre a frente das suas coisas, tem um jeitão meio arrogante e egoísta e por vezes sofre com isso. Agora, uma coisa é fato: ela é uma boa amiga. Entre choros e brigas, bem da realidade complexa humana mesmo, as relações dela são as melhores. Nadia tem duas grandes amigas igualmente cativantes: Maxine e Lizzy.
          A série tem personagens muito interessantes de se assistir e dá pra se identificar bastante com as reflexões e as crises. Eu tenho uma grande dificuldade com comédias, mas talvez o fato de não ser uma série onde esse seja o foco tenha ajudado. Eu fiquei muito tocado com muitas cenas e quando terminei a série, levei um tempo pra terminar de absorver tudo o que eu havia sentido e de como havia me apegado aos personagens. Chorei no último episódio (o que não é lá tão difícil assim de acontecer, devo admitir).

          Boneca Russa foi produzida durante 2018 e teve sua estréia na plataforma digital em fevereiro de 2019. Gosto muito da ideia do nome também. A matrioska é um elemento fortíssimo da cultura russa e o conceito de uma boneca sair de dentro da outra tem tudo a ver com o desenrolar da série. A vida longa, Nadia de novo e de novo seguindo seus rumos. A mensagem que fica é muito importante. É, definitivamente, uma série que eu acho que todo mundo deveria assistir.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A leveza de ser e estar

          Depois de um tempo de coração partido, a gente percebe que tá tudo bem. Entende que tem muita coisa que acontece e simplesmente acontece. Não dá pra controlar tudo e só de tentar me vi louco, por vezes. Ao começar a me libertar disso, começo a sentir a leveza de simplesmente ser. Isso é algo que eu dou muito valor porque a delicadeza envolvida é grande e conforta. É sobre se perdoar e se preparar para cuidar de si. Eu sou tudo o que eu preciso e com isso posso ganhar o mundo. Quem vem comigo, vem porque quer e porque gosta. Não há obrigações por aqui.
          Tem hora que a bad pega de jeito e aí não tem vexame em balcão de bar que segure. Mas perceber quem te cuida é algo engrandecedor. Em meio a planos desfeitos e cafés que esfriaram, há sempre uma nova oportunidade de ser. Incentivar a criança que em algum momento foi silenciada por uma onda conservadora de descrença ou de maldade mesmo. Sê tudo aquilo que se quis em tempos não tão antigos.
          Nossa passagem aqui é tão complicada assim porque temos uma enorme dificuldade em entender que ela não é mais do que isso: passagem. Que o ser é muito diferente de estar e que o maior vínculo é o que a gente cria com a gente mesmo através das trocas com as pessoas que nos passam. Muitas delas nos deixam tesouros preciosos como uma pochete com bilhetes carinhosos, a maquiagem fluorescente no cruzeiro ou mesmo os cafés na beira da estrada. Essas, a gente carrega consigo na nossa jornada individual, tal qual elas também o fazem. Esse é o grande barato da vida. Perceber e sentir-se acerca de si, sem projeções ou dependência de fazê-lo por causa de qualquer outra pessoa.
          Eu não sei amanhã, mas hoje tá tudo bem. Viagem.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Redemoinho

          Esse glitter, as máscaras e as cervejas são disfarce puro do meu caos. É que toda vez que eu vejo as pessoas fazendo o que faríamos e fazíamos eu grito de dor. São os nossos planos, a nossa vida. O disfarce é vital pra minha sobrevivência nessa miséria que me restou. Quem vê nem nota, mas é por causa do meu lado artista de pintar e enfeitar. Do pouco que me resta, ainda sei decorar bem uma bela tragédia.
          É difícil pra caralho toda vez que eu te vejo ou sei de você. Ouvir a sua voz me bambeia e a máscara sempre dá uma escorregada em todas essas vezes. Cê facilita bastante o processo pra mim porque se trancou de tudo, mas é uma necessidade tóxica minha de me machucar assim. Eu tenho esse processo autodestrutivo de perceber o que é pior pra mim, ir lá e fazer. Já fiz pior, é bem verdade. Esse processo, hoje, é só interno. Pelo menos não respingo em ninguém mais. Das minhas necessidades urgentes, consegui parar de arrastar as outras pessoas pro meu redemoinho de destruição.
          Voando no centro de todo o caos, não tem ninguém pra me salvar. Então eu chego a exaustão e caio inerte até me recuperar ou explodo de vez.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Calmaria centrada

          Muitas versões de nós depois, você me pergunta no que foi que deu. As pessoas ao redor calam no meio da nossa confusão semi-dita e parecemos todos entrar num vortex de espaço-tempo perdido em outrora. O café cremoso e a cerveja gelada podem dizer muito, é verdade. Eu preferia só enterrar de vez tudo isso mas essa sua insistência em dizer o que já foi dito quase me irrita. Digo quase porque sei que a razão tá do seu lado e a parte de mim que grita internamente pedindo socorro a ninguém sabe que precisa disso pra descansar.
          Fico sempre impressionado com a sua leveza e habilidade de minimizar todo e qualquer problema. É que eu to tão acostumado a ter (e ser) reviravolta e furacão o tempo todo que não sei lidar com a calmaria e a segurança. Perdi a conta de quantas vezes peguei toda a segurança que existia em portos seguros e joguei fora. Sabotei, destruí. Eu sou destruição pura disfarçada em calmaria centrada.
          Toda a nossa loucura me faz pensar em que ponto eu simplesmente estacionei enquanto você foi. Cê se nega a concordar, mas me ajuda a entender de forma mais clara as dimensões de diferença entre a gente e entre mim mesmo. É bom demais perceber o quanto se cresceu, mas é um tanto perturbador perceber o quanto não se cresceu em certos aspectos. Os paralelos me são muito intrigantes e, por ora, fico muito feliz por me serem interessantes de novo. Percebo que por baixo de tudo tem um mundo que eu destruí em você e em mim. E essa obsessão ardente me faz dançar um romance ruim enquanto responde as minhas perguntas.
          Se tudo der errado no fim, a gente pelo menos escreve um livro pra virar best seller e ficar rico com isso tudo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

depois.

          Se antes era parte natural de mim escrever entre metáforas e cafés, depois de tudo o que me sobrou foi a versão alternativa que viaja entre mundos. Rapidamente tomou o espaço do primeiro eu e se fez muito mais presente e forte. Carrega uma máscara e identidade muito mais forte, é verdade. Mas o forte é só questão de ponto de vista. Nessa incessante busca pelo primeiro eu, me pego visitando festas, campos e camas. Visitando porque, de fato, nunca estive. E olha que essa é uma frase bem literal.
          Sobre merecer mais do que essa bosta toda em que estamos, apenas consigo dizer que é sentimento compartilhado. Há muito os filtros coloridos nos deixaram porque a vida cobra e a gente é inundado por toda essa lama que descolore. Conseguir sair e respirar é quase utopia.
          Já não restam fotos, sorrisos ou paz. O que ficou é esse sentimento de destruição interior toda vez que meu olhar cruza o seu ou mesmo o fazem em segredo. E destrói tanto por dentro que não sei como não vaza aos olhos. Talvez vaze, mas é quer já é tanta coisa que já nem sei mais o que vi ou vejo. Sentido nenhum, realmente.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Rota de emergência

          Ainda tentando se acostumar com os controles e toda a modernidade da nave roubada, Bono repassava as informações dos papéis que pegou da bolsa de Vicente, tentando decifrar a localização mais específica do planeta que estava procurando. Das decodificações já feitas, havia conseguido as coordenadas exatas do Portal de Vidro mas ainda precisava descobrir como passar por ele e pra onde ir em seguida.
          Estava estressado, inquieto e com a mente sobrecarregada. Não sabia o que fazer e sentia cada vez mais urgência em responder a tonelada de perguntas que rodeava sua cabeça desde o sumiço de Mino. Tentava inutilmente respirar fundo e controlar o desespero. Largou-se no chão e começou a chorar. Apenas o som de seu choro alto e inconstante ouvia-se em meio àquele vácuo. O silêncio habitual que trazia paz em outrora, atualmente, parecia ensurdecedor. Acostumara-se com o som da voz de Mino e com sua risada contagiante. Lembrava das histórias e das aventuras compartilhadas, dos perigos e das brincadeiras. Algo não estava certo na tese de Vicente. Sentia-se mal por estar preso a isso e, ainda pior, por não conseguir priorizar o caos que havia começado quando decidiu deixar Oásis.
          Teve suas reflexões interrompidas por um estrondo vindo de dentro da nave. Levantou-se rapidamente em estado alerta e logo avistou uma barra de ferro no canto da sala. Andou cautelosamente para não fazer barulho, pegou a barra e foi pelo corredor em direção ao barulho. Passando pelos corredores em neon amarelo e azul, Bono pensava no que fazer caso houvesse um confronto com outra pessoa. Até então ele estava certo de que a nave estava totalmente vazia. Ao virar mais dois corredores, viu uma porta ao fundo com uma luz de emergência azul clara em cima e um cadeado no trinco. Aproximou-se com muito cuidado e ouviu outro estrondo. Parecia o som de algo metálico sendo derrubado no chão. Ouviu um som que não conseguia distinguir e arrepiou-se. Colou o ouvido na porta e pôde perceber que tratava-se de uma criatura não humana. Essa nave deveria ser algum tipo de nave de experiências. Certo de que estava preso com uma criatura perigosa de sabe-se lá qual planeta, achou pertinente não se fazer notar e concluir logo seu destino antes que algo mais acontecesse. Correu de volta à sala de controles e o painel piscava em amarelo uma mensagem que não entendia. Não conhecia aquele idioma, mas reconheceu o símbolo de alerta. Rapidamente pegou os papéis de Vicente e revirou as páginas até encontrar o mesmo símbolo. Estava marcado na mesma página onde falava sobre o Portal de Vidro.
          Ao olhar pelo painel frontal teve certeza. Podia ver, de longe, o que era descrito por todos como o Portal. Uma energia de excitação e urgência correu por todo o seu corpo e tudo o que se deu em seguida pareceu extremamente natural. Era como se todas as informações dos documentos de Vicente agora se encaixassem e ele soubesse como seguir adiante. Ativou os controles de segurança e testou tudo. Em seguida, modificou a velocidade da nave e partiu em direção ao espectro. Bem em frente, pôde entender, na única fração de segundo visível, o porquê do nome Portal de Vidro. Enxergou toda a imensidão que estava do outro lado antes de ser engolido por uma enorme força que sugou a nave numa velocidade inesperada.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Corrida do caos

          Corri contra os monstros mais insanos do meu íntimo numa aposta imbecil pela sua liberdade. Depois de inúmeras viagens entre planetas e galáxias, fomos de Éden ao planeta sombrio fantasma onde tudo parecia terminar. Terminou, enfim.
          A corrida do caos foi minha última aposta, em vão. Aposta por algo que já não estava mais em pauta de alcance. As distorções digitais e os agudos ensurdecedores parecem ter virado meu lar, porque mais perdido do que eu, só o coração que decidi trocar por um fígado extra. Sabe como é, a gente tenta levar vantagem trocando algo que estragou por algo que vai ser mais útil. E as boas brejas no tempo quente são sempre o que sustentam os de coração estragado.
          É que esses finais tem quase como regra ter algo pra embalar de trilha, pra terminar de te fincar os pés no chão. Ao decidir pela corrida é quase como se eu só quisesse sentir o vento nos cabelos uma última vez, enquanto corria por um objetivo inalcançável. Percorri loopings infinitos de ponta cabeça e eu nem gosto de altura ou dessa adrenalina. Mas não descarrilhou. Até queria. Ficar lado a lado com os maiores e mais assombrosos medos em meio a essa turbulência neon escura maluca pode ter me feito perceber por quais caminhos sombrios seguir. Ao som da corneta anunciando minha derrota, deixar o carro, detalhadamente preparado, talvez nem tenha sido a maior das perdas. E percebo isso quando vejo seu rosto se esvair ao longe, como consequência.
          O que resta é saber se, com o conhecimento dos trilhos altos e escuros, vou ficar ou se vou achar um meio de recuperar a antiga nave.