quarta-feira, 26 de junho de 2019

O íntimo de Clarice Falcão │ Tem Conserto (2019)

          Obscuramente no ponto certo, Tem Conserto traz uma certa solidão que é aconchegante. Talvez o fato de reconhecer em alguém as próprias aflições e os sentimentos mais íntimos - aqueles que não falamos em voz alta pra ninguém. O disco traz uma mistura perfeita de letras que tratam sobre uma profunda solidão, ora mascarada, ora bem crua, com um misto de excitação, euforia e um quê de tesão, misturando uma sonoridade de sintetizadores da disco music setentista/oitentista com pop music de qualidade.
          É notável a trajetória musical de Clarice até aqui. De Monomania (2013) e Problema Meu (2016) ao recém lançado Tem Conserto, ela transita por estilos bem diferentes de um disco pro outro, o que marca claramente cada um de seus estágios e períodos da carreira. Tem Conserto é um álbum muito honesto e profundo. Com a incrível produção de Lucas de Paiva, ainda tem aqui a marca humorística característica de Clarice, presente em diferentes versões do que estamos acostumados. Seu terceiro álbum de estúdio é a reflexão e beleza da tristeza, mas também é a despretensão de um sábado à noite e um rolê. É a expectativa da semana e o fim de noite que passou com tudo em cima de você. É a expressão exata do que você sente ali estirado no chão - ou na cama. "Hoje eu não saio dessa cama nem a pau".
          A doce melancolia de Clarice soa bem aos ouvidos e à cabeça. Se em "Minha Cabeça", primeiro single, ela "Repete as mesmas coisas/Minha cabeça repete as mesmas coisas/Até não ter mais coisa'', aqui ela traz um bocado de coisas novas. O segundo single, "Mal Pra Saúde", é também meu favorito. Sempre me encantam músicas que trazem nostalgia de algo que não vivemos mas ao mesmo tempo vivemos. Pra completar esse sentimento, Falcão nos traz um videoclipe feito no movie maker direto do túnel do tempo onde há nem tanto tempo assim vivíamos de orkut, flogão e comic sans. O tiro certeiro.
          "Esvaziou", terceira música de trabalho, adentra mais. O peso e a falta de algúem que era alguém demais pra ficar. Como pode o partir de um deixar a sensação de que ninguém ficou? O anseio de quem só sabe viver se o hoje for amanhã anseia mais ainda no peito de quem vive junto, até que o balão esvazie.
          Em "Horizontalmente", percebe-se que Clarice é do tipo de artista das mais interessantes. A que faz música e show para deleite próprio e também para o de seu público. Se na letra ela diz que finge nem ouvir se for proibido deitar e que não sai da cama nem a pau, sonoramente ela faz nossos pés balançarem nosso corpo todo numa produção bem gostosa. São paralelos inteligentes presentes tanto nessa faixa quanto no resto do álbum.
          "Morrer Tanto" consegue exprimir com tanta precisão o significado de cada palavra na letra que é até difícil de explicar. A produção dessa música, a sutileza das mudanças e efeitos combinados com a voz de Clarice enquanto lamenta a exaustão de sentir demais, de se apegar demais, de morrer demais. "Tem gente que põe uma roupa e segue em frente/Feito não doesse/Feito fosse fácil/Feito fosse isso/Feito não morresse''. É a música mais brilhante do disco. Provavelmente a com maior carga também.
          É impossível falar desse cd sem falas das duas faixas que mais se destacam. Em ''Dia D'', Clarice vai aos poucos, frase por frase, batida por batida, contando ao ouvinte a grande expectativa do fim de semana. Típico de um grande evento para o qual levam-se dias de preparação e excitação. O auge do fim de semana, do mês. "Esperei semana toda/Hoje vai ter que rolar/Não vai ter escapatória/Meu amor, não vai prestar''. O humor sexual da cantora é tão bom quanto o mórbido. Em "Só + 6", uma batida mais pesada dá início à uma solidão mais profunda. Àquela de quem se joga de um lugar ao outro pra esquecer, pra não pensar. Pra só ser. ''Na boca pro Beco do Rato pro after de alguém/Pra casa do amigo do primo de não sei bem quem/Pro bloco até esse bloco não ter mais ninguém/Sou livre, sou livre, sou livre, até ser refém/Só mais seis, depois só mais seis outra vez/Vou esperar o sol nascer e vou". Temos ainda "CDJ", uma música cuja letra vem cheia de trocadilhos. O efeito da palavra ''som'' ao longo da música é essencial pro ápice da música, muito bem encaixado com o restante por sinal.
          "Tem Conserto", música que não só dá nome como fecha o álbum, vem pra abrir a ferida e também dar esperança de que, apesar de não estar lá grande coisa, tem solução. ''To quebrada, mas tem conserto/Não sei como, mas tem conserto/To capenga, mas tem conserto/Tá difícil, mas tem conserto". É um tratado de paz consigo mesma. É aprender a conviver com a ansiedade e entender que tá tudo bem não viver num conto de fadas da vida ideal. A sociedade impõe altos padrões e é não raro sucumbir a pressão do imediatismo de hoje em dia.
         O cd tem ao todo nove músicas. Quando saiu, pensei que era pouca coisa. Fato é que cada uma delas se completa e torna a experiência completa entre si. Tenho a sensação de que se houvessem mais, nesse caso, realmente seria dispensável e acabaria interferindo pra essência ficar na medida como ficou. Se em outras ocasiões ela caminhou meio torta, nesse lançamento ela caminha em direção certeira.

14 comentários:

  1. Nossa, algumas partes achei bem tocante. Eu não sabia que ela havia lançado um álbum. Vou pesquisar no meu Spotify

    ResponderExcluir
  2. Acho a Clarice uma artista incrível, uma artista completa. Não vou deixar de ouvir o album dela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela é muito completa mesmo! O estilo dela me agrada demais.

      Excluir
  3. Nossa, faz tempo que nao ouço Clarice, costumava ouvir bastante, agora quero voltaar haha

    Beijos
    abobrinhacomchocolate.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É impossível ouvir uma música só! hahaha
      Volta sim, dá uma ouvida nesse cd novo!

      Excluir
  4. Sinceramente não conheço ela, mas achei o post interessante. Estou sempre aberto para conhecer coisas novas, então já estou indo no meu Spotify ❤

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa é uma ótima oportunidade pra conhecer!
      No spotify tem os outros álbuns também, cada um segue um estilo bem diferente do outro. Dá uma olhada lá! =)

      Excluir
  5. Eu nunca ouvi um álbum da Clarice Falcão. Acho que só algumas músicas aleatórias. Adorei sua review, acho que vou procurar no Spotify e ouvir para ver se eu gosto. Adoro música pop, incluindo nacional.

    Abraços!

    ______
    🌐 Relatos de um Garoto de Outro Planeta
    👍 Facebook: Relatos de um Garoto de Outro Planeta

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Procura sim! Tenho certeza que cê vai se identificar com alguma das sonoridades dela!
      Depois de conhecer as músicas, dá até pra saber a ordem cronológica haha
      Espero que goste =)

      Excluir
  6. Nossa, fazia muito tempo que eu não pensava ou lembrava da Clarice. Que post pertinente... Adorei sua delineação faixa a faixa, e a vontade é de correr pra conferir tudinho agora mesmo. Clarice Falcão é uma artista e tanto. Gostei muito da escolha desse post. Abraços

    Carol, do Coisas de Mineira

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dá uma conferida sim! Esse álbum tá bom demais.
      É muito legal quando a gente resgata um artista assim que não tava lembrando e vê que é bom, né?
      Que bom que gostou do post. =)

      Excluir
  7. Oi, tudo bem? Confesso que não ouço muito a Clarice nos dias de hoje. Logo no início da carreira quando quase não era conhecida gostava mais do estilo, mas como você disse ela mudou muito com o passar dos anos. Preciso conhecer seu novo trabalho. Beijos, Érika =^.^=

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Érika!

      Pois é, ela mudou bastante o seu estilo. Eu acho isso muito interessante porque sempre abre espaço pra um público novo e o artista não fica naquela mesmice. Dá uma ouvida sim, os novos trabalhos estão legais demais!

      Excluir